Carnaval e civismo: o erro do palanque
Foto: Riotur.Rio
Em Biografia do Abismo, o cientista político Felipe Nunes descreve como o Brasil atravessa um processo de extrapolação da polarização política. Ele o define como “calcificação política”: condição em que a divisão ideológica transborda as urnas, instala-se nas mais diversas esferas da sociedade e passa a gerar rupturas sociais profundas.
Os sinais estão por toda parte. A política já contaminou símbolos nacionais, marcas de consumo e até manifestações culturais. O desfile da escola Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reacendeu o debate sobre os limites entre expressão artística e palanque político.
Levar a idolatria a figuras políticas para o Carnaval é um erro. Independentemente de eventual tipificação eleitoral, o culto à personalidade é sintoma de uma sociedade que ainda carece de maturidade política. Trata-se da crença perigosa em figuras messiânicas, capazes de solucionar problemas complexos sob uma aura de sacralidade, ignorando as imperfeições inerentes à condição humana.
Populismo e egocentrismo são traços transversais à esquerda e à direita brasileiras. Seus líderes contemporâneos apreciam ser reverenciados como figuras acima de qualquer imperfeição terrena, não como mandatários temporários, mas como líderes infalíveis.
O roteiro não é inédito. Em 2022, durante as celebrações do bicentenário da Independência, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) utilizou o 7 de Setembro como plataforma política. Posteriormente, foi declarado inelegível pelo TSE por abuso de poder político. O precedente jurídico reforça que símbolos nacionais e eventos públicos não podem ser instrumentalizados eleitoralmente.
O ponto central não é Lula ou Bolsonaro. O Brasil não precisa de um salvador da pátria. Precisa de projeto. Precisa de planejamento de Estado, estabilidade institucional e maturidade democrática.
É imperativo evitar que a calcificação política atue como catalisadora de uma ruptura social irreversível. O Carnaval carioca ofereceu uma resposta técnica e simbólica ao mundo político: ao rebaixar a Acadêmicos de Niterói para o grupo de acesso, sinalizou que a folia — espaço
de crítica e liberdade — não deve ser confundida com palanque de adoração.
