Jackson Laurindo
João Santana e o Brasil pragmático
Foto: Compol 2026/Divulgação
O maior evento de comunicação política do Brasil, o Compol 2026, recebeu uma das figuras mais influentes do marketing eleitoral mundial. João Santana, o publicitário responsável pelas campanhas vitoriosas de Lula em 2006 e de Dilma Rousseff em 2010 e 2014, subiu ao palco e, em poucos minutos, colocou em xeque boa parte das premissas que orientam as estratégias eleitorais em curso no país.
Foto: Compol 2026/DivulgaçãoApelidado de “O Mago” ou “O Bruxo” — pela capacidade quase mítica de reverter cenários altamente desfavoráveis e eleger candidatos dados como inelegíveis —, Santana não veio relembrar campanhas históricas. Veio com uma tese: o Brasil não é um país polarizado.
Contrariando pesquisadores, jornalistas e lideranças políticas, Santana sustentou que a divisão que se observa no debate público não é ideológica, mas socioeconômica e territorial. Para ele, o eleitorado brasileiro é majoritariamente pragmático e ideologicamente inconsistente — ou seja, a maior parte dos eleitores não compreende as diferenças reais entre esquerda e direita e, na prática, defende pautas dos dois campos simultaneamente. A polarização, afirmou, existe, mas ocorre nas elites sociais e nos meios de comunicação, não nas ruas.
A provocação de Santana tem implicação direta no ciclo eleitoral de 2026: se a maioria das estratégias está sendo construída sobre a premissa de um eleitorado polarizado, elas podem estar mirando o alvo errado.
A plateia deixou o evento encantada — e confusa. Talvez seja essa a verdadeira feitiçaria de João Santana: não entregar respostas, mas plantar dúvidas em quem chegou com certezas demais. Quem passou os últimos meses construindo estratégia eleitoral sobre a premissa da polarização saiu do Compol 2026 com uma pedra no sapato. E a sensação incômoda de que pode ter errado o diagnóstico antes mesmo de começar a campanha.
Aqui em Santa Catarina, o recado ressoa com urgência. No estado mais bolsonarista do país, há pré-candidatos que fazem pré-campanha sem conseguir decolar. Para alguns, estratégia já não basta — vão precisar de magia. E o primeiro passo pode ser ligar para João Santana.
Jackson Laurindo é cientista político, analista do cenário eleitoral da região, de Santa Catarina e do país, e publica periodicamente no Blog do Léo Nunes
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