Os riscos do supercongresso
Montagem com fotos de Ricardo Stuckert/PR e Andressa Anholete/Agência Senado
O avanço expressivo do PL e aliados redefine o presidencialismo brasileiro e impõe dilemas de alto risco a quem vencer a disputa presidencial.
O encerramento do primeiro turno projeta uma nova dinâmica política para o futuro do país, independentemente de quem vença a eleição presidencial.
Desde que o cientista político Sérgio Abranches cunhou o termo “Presidencialismo de Coalizão” — para explicar a coexistência entre um Executivo forte e um Congresso hiperfragmentado —, jamais uma única força política concentrou tanto poder no parlamento. A expressiva vitória do PL, com 121 cadeiras na Câmara dos Deputados e 19 no Senado, somada às bancadas de legendas aliadas, dá à direita plenas condições de ditar a agenda nacional.
Caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contrarie a tradição histórica de confirmação da vitória de quem lidera o primeiro turno, enfrentará um terreno legislativo árido. Qualquer iniciativa que dependa do Congresso — de reformas econômicas a sabatinas para tribunais superiores e agências reguladoras — encontrará barreiras severas, empurrando um eventual “Lula 4” para a defensiva e para um mandato ainda mais desgastante do que foi o terceiro.
Por outro lado, se Flávio Bolsonaro (PL) confirmar o favoritismo, ele deve assumir o planalto com caminho aberto e oposição enfraquecida. Respaldado por maiorias sólidas nas duas Casas, terá margem inédita para aprovar suas pautas. Em contrapartida, perderá o álibi da sabotagem parlamentar. Diante do controle quase absoluto do Legislativo, qualquer tropeço político ou econômico recairá integralmente sobre o próprio governo.
Assim, o segundo turno se resume a dois caminhos de alto risco: para a esquerda, a ameaça concreta da paralisia decisória diante de um parlamento hostil; para a direita, o peso inédito de governar sem o conforto de poder culpar terceiros pelos próprios erros. Vencer nas urnas será a parte fácil. A conta de governar um país com um Congresso hegemônico, essa sim, começará a ser cobrada já no primeiro dia de mandato.
